O patinho tavu na lagoa... O Menininho tavu na canoa... Se eu fosse uma brabuleta.... Pegavu ele e butavu na maleta....

4/04/2006

Que gosto ruim



Era ainda muito claro. Tudo muito claro, como um dia de sol daqueles... Mas não fazia calor - bem, vou lembrando e escrevendo - e era uma rua, assim como de qualquer cidade. Tudo parecia estar pintado de branco, era tudo muito claro.

Bem, eu andava e tinha em minha pele algo de tecido confortável. Me lembro que era uma camisa de listas grossas azuis de vários tons e uma bermuda branca. Eu andava indo a um lugar para comprar um rato cinza e mais uma coisa que não lembro.

Alguém me grita e eu me irrito muito. A voz... Era uma pessoa que eu estou com muita mágoa. Pensei em nem parar, mas insistiu no grito, e isso me fez parar com muita raiva e virar. Veio até mim, estava com uma tatuagem dessas tribais no corpo, e falou comigo. Eu só olhava a tatuagem e não dizia nada, mas sentia uma raiva. Muita coisa me foi dita - muita cobrança - e eu só escutava, mais e mais aumentava minha mágoa que meu corpo começou a se transformar num saco de água morna, como se não tivesse nada em mim além de água morna. Eu deixei a pessoa falando pelos cotovelos e saí dali em direção a um porão na tal casa onde se comprava ratos.

Uma mulher falou comigo, ela tava de preto e tinha cabelos mel, uma senhora lindíssima. Se fechava num chalé negro, e sorria sempre antes de falar. Me falou tudo sobre os ratos e me disse que eles jamais poderiam ver luz tão intensa como aquela que estava fazendo. Sendo assim, não poderia levar o rato, mas poderia escolher algum... e alimentá-lo também, se eu tivesse afim.

Fomos no porão e a claridade sumiu, mas tinha uma luz tênue. Ela me disse:

- Olha, todos temos que ter nossos Ratos em casa, pois assim a gente não precisa estar tão cheio de mágoas... Tu virou uma piscina de xixi contido, uma represa preste a estourar e eu sinto que a voz nunca para... Sei que tu deixou ela lá, mas ela não para jamais.

Aquilo me irritou... Comecei a ouvir a voz daquela pessoa de novo e a tatuagem ia se rabiscando nas paredes... "Meu Rato!!! - pensei - Quase morro de angustia!!!"

Ela me mostrou os Ratos então. Enormes, feios, sujos, asquerosos... Eu amei aqueles bichos!!! Escolhi um que não era tão cinza, era meio creme e ela fez "tsc tsc tsc" pra mim, com um olhar maternal de quem diz: "esse guri, ai ai ai" - Eu peguei pão torrado mofado, e dei pro meu rato... ele devorava como um louco esfomeado, dentro da caixa de correio velha...

O requi requi me fazia não escutar, ou não dar mais atenção, a voz e ia secando um pouco, ou mesmo aquietando a minha mágoa e não prestava mais atenção na tatuagem nas paredes de pedra sujas e sombrias... Só que eu não ia poder levar o Rato!!!

Acordei... - escrevi o que lembrei - to me sentindo tão péssimo e com uma dor de cabeça!!! Um gosto de poeira na boca... cheiro do porão e do Rato em mim... É de manhã aqui e eu odeio acordar cedo... eu odeio acordar... cedo.

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