O patinho tavu na lagoa... O Menininho tavu na canoa... Se eu fosse uma brabuleta.... Pegavu ele e butavu na maleta....

10/26/2004

Ode Ao Burguês de Mário de Andrade (1893-1945)





Eu insulto o burguês! O burguês-níquel,

o burguês-burguês!

A digestão bem feita de São Paulo!

O homem-curva! o homem-nádegas!

O homem que sendo francês, brasileiro, italiano,

é sempre um cauteloso pouco-a-pouco!



Eu insulto as aristocracias cautelosas!

Os barões lampiões! os condes Joões! os duque zurros!

que vivem dentro de muros sem pulos;

e gemem sangues de alguns milréis fracos

para dizerem que as filhas da senhora falam francês

e tocam o "Printemps" com as unhas!

Eu insulto o burguês funesto!



O indigesto feijão com toucinho, dono das tradições!

Fora os que algarismam os amanhãs!

Olha a vida dos nossos setembros!

Fará sol? Choverá? Arlequinal!

Mas á chuva dos rosais

o êxtase fará sempre Sol!



Morte à gordura!

Morte às adiposidades cerebrais!

Morte ao burguês mensal!

Ao burguês cinema! ao burguês tílburi!

Padaria Suiça! Morte viva ao Adriano!

" — Ai, filha, que te darei pelos teus anos?

— Um colar... — Conto e quinhentos!!!

Mas nós morreremos de fome!"



Come! Come-te a ti mesmo, oh! gelatina plasma!

Oh! purée de batatas morais

Oh! cabelos nas ventas! oh! carecas!

Ódio aos temperamentos regulares!

Ódio aos relógios musculares! Morte e infâmia!



Ódio à soma! Ódio aos secos e molhados

Ódio aos sem desfalecimentos nem arrependimentos,

sempiternamente as mesmices convencionais!

De mãos nas costas! Marco eu o compasso! Eia!

Dois a dois! Primeira posição! Marcha!

Todos para a Central do meu rancor inebriante!



Ódio e insulto! Ódio e raiva! Ódio e mais ódio!

Morte ao burguês de giôlhos,

chorando religião e que não crê em Deus!

Ódio vermelho! Ódio fecundo! Ódio cíclico!

Ódio fundamento, sem perdão!



Fora! Fu! Fora o bom burguês!...

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