O patinho tavu na lagoa... O Menininho tavu na canoa... Se eu fosse uma brabuleta.... Pegavu ele e butavu na maleta....

10/12/2004

A Mulher que Fala com a Lua -
Hoje, Meia Noite - Na Rádio MEC - 98,9FM



De Sóter de Araújo França lido por Esther Lucio Bittencourt programa da Lilian Zaremba texto tirado do site Suave Clorofila

Agora é dia por aqui. Dia claro por seis meses. E assim, a gente vê o Sol passar, bem devagar... devagarinho... Esse é um período bom, pois não faz tanto frio. E a gente sai por ai, às ruas estão cheias e os rostos rosados. Vejam esses sorrisos! Isso mostra que ainda é dia por aqui. A luz traz muita coisa boa para nossa gente. Divertidas brincadeiras, ótimas lembranças, calmaria... Como demora o entardecer... É sempre assim. Parece que o Sol está pra morrer... Que nada! Tão cedo não se vai. E os dias passam, as sonecas são curtas - como um descansar após a bóia. Quando se come? Quando se dorme? Quem se importa? É dia aqui!

Mas quando se sente o vento... O vento! Assim que se repete muito o vento é que é a hora! Basta olhar o verde aqui de volta... Vai ficando claro... clarinho... clarinho... até ficar cinza. Ai embranquece tudo. Mais não neva de cara, não... Cai de mansinho... Tão pouquinho. E a luz se apaga como o começo de um espetáculo. Um lindo espetáculo! A aurora boreal!
O início de uma obra que durará seis meses a partir desse momento! E lá se vai o Sol... É disso que estou falando. Da noite que parece eterna.
Antes de tudo, vê-se no longe a aurora. E só uma moça sai à rua nessa hora. Ela vai cantar pra lua! Ela fala com a Lua! Bem, ela diz que fala... eu não acredito. Mas gosto de escutar... É bonito! Que importa se é verdade ou mentira? Me cativa... então, escuto...
Ela se veste de azul e negro, os cabelos soltos, a pele branca, os olhos azuis clarinhos... como um espírito... ou como imagino que sejam os mortos... Ela anda macio no chão branquinho - como se calçasse apenas meias - e se senta no banquinho. Ai ela espera a Lua. Que sempre vem depois da aurora.
Às vezes vem cheia, às vezes vem fininha. Mas sempre vem!

Quando a lua amarela desponta das pedras, de cima do lago... Ela cantarola. Começa a balbuciava um som, com a boca fechada, como quando se faz ninar as crianças daqui. Tão tranqüila.Tão calma... Sabe, as crianças ficam tristes nessa época, pois vão ter que ficar muito tempo em casa. Morrem de medo de enfrentarem a noite eterna... Correm que se pelam da lua no lago! É por causa de uma lenda que aqui vigora. Eu não acredito. Mas... bem, é mais ou menos isso: Uma doce garotinha foi ver a lua no lago, e ouviu a voz da lua muito clara. Elazinha então, paraliso-se por inteiro. A lua ciumenta disse:

- Não gosto que me deixem só nesse grande lago frio. Se veio até aqui, então cante comigo... - e não contente com a reação da menininha pálida de medo, implorou - Pro tempo passar mais rápido... Canta vai! O que te custa?

- Mas eu... eu... eu não sei cantar nada - respondeu a pobrezinha que nem se mexia, deslumbrada com os olhos da lua.
Então a lua, paciente e garbosa, ensinou a garotinha, os primeiros acordes da sua canção preferida... Fez dos barulhos da noite uma orquestra e da canção um mantra. Repetiu-a várias vezes... e a menina, como que hipnotizada saiu a cantarolar essa cantiga:


"Porque minhas vontades
Não se cessam aqui?
Luar e Vento...
O que mais posso pedir?
Gosto disso como quando sinto
Que posso parar o tempo
Mas isso não basta em mim!
Isso nem me faz esquecer
Que existem outras coisas
Que existe você...
Há quanto tempo vou viver
Com luar e vento
Mas sem beijar você?"


E, sendo assim, ainda cantando essa musiqueta, caminha pro lago frio pra beijar a lua... Beijar a lua! Vejam vocês! E dizem que a lua no lago fazia beicinhos doces, pedindo os beijinhos da guria... Onde já se viu?
Eu não acredito em nada disso! Bobagens. Crendices. Mas tem essa moça do escuro - é como ela é conhecida por aqui - essa que sai na aurora e senta no banquinho para cantar pra Lua... falar com a Lua... Só sei que essa Dona... Como é mesmo seu nome? Ah! Quem se importa com nomes? Enfim... Essa Dona do Escuro disse pra todos que ouviu - agachada numa moita - quando ainda era bem pequenina, a canção da lua, e por isso, durante esses seis meses que se faz dia, fica em casa, no escuro... esperando pela Lua. Quando as noites chegam... Lá vai ela pra rua...
Olha lá! Num disse, ali vai ela! Nossa! Como é linda! Misteriosa... Já é natal? Acho que ainda não... Dizem que o Natal é uma noite mágica... e além do mais, dizem por ai que... Shiii! Olha, ela tá cantarolando... Será que existe alguma coisa mais mágica que isso? Será? Que lindo...

Fim

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